Intolerância

Intolerância



 

  O barulho invadia minha casa, como fazia com todas as outras do bairro e talvez da cidade. O ar poluído machucava meus pulmões e a comida seca descia arranhando minha garganta.
  Me permiti olhar o mundo lá fora e ele me pareceu pequeno, as casas se aglomeravam e, uma por cima da outra, iam se construindo mais, mas sem nunca perder o padrão. As cores podiam ser diferentes, mas as casas eram iguais e as pessoas que ali moravam também eram. Pontualmente, fui colocado para dormir e o beijo estalado da minha mãe ressoou com o de todas as outras e todas as luzes foram apagadas, primeiro as dos nossos quartos, e depois de  uns cinco minutos, as deles. Mas diferente de todos os outros, eu não dormi.
  Esse mundo onde ser igual era lei e ser diferente, pecado, não parecia nada com a estranha palavra "felicidade" que eu tinha encontrado no dicionário. Deixei que suas sílabas brincassem em meus lábios até que percebi que as janelas vizinhas pareciam me espiar. Prendi a respiração para não fazer nenhum ruído, não poderia me deixar ser pego em minha insana diferença naquela noite, mas permiti a mim mesmo que sonhasse como nunca antes.
  A partir daquela noite, não pude viver sob a minha pele, então troquei por uma a qual achei que se encaixasse mais com o meu jeito de ser. As roupas de minha mãe não se adaptavam bem ao meu corpo masculino, passei sua maquiagem e me senti completo. Me prenderam em um corpo que não o meu e esperaram que eu conseguisse viver com isso. Todos me observaram quando passei sorrindo pelas ruas, e a liberdade que a diferença me trouxe foi acompanhada da estranha palavra vista antes no dicionário. Mas tudo isso durou pouquíssimo tempo, todos os olhares de reprovação atravessaram meu corpo como navalhas, suas palavras bateram no meu rosto e chicotearam minhas costas com o seu ódio, estupraram a minha inocência com sua intolerância.
  Antes que o dia acabasse, eu já tinha fugido, e a cada passo minhas cicatrizes iam se curando até que não mais doíam, mas me machucava olhar para elas. O ódio deles me tirou tudo, mas eu um dia tomaria tudo de volta com o meu amor.


                                                                                                                       Eduarda Ferro.

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