Vozes urbanas

Vozes urbanas




As vozes gritam
Pedindo por socorro
Eles não notam
Eles não ligam
O cadeirante não vai poder sair de casa
Pois a calçada não presta
Quem mandou cadeirante, tu não poderes andar?

Uns tem de mais
E no entanto tão pouco
Tem tanto a se comprar
O mundo de cimento é tão reduzido
Que o podemos ver por inteiro
É só olhar do começo da orla até o final

As casas se espremem
Não se tem mais espaço
Destrói aquela árvore
Ou aquela floresta
É tudo igual

Uma, duas, três horas
Mas que droga
O trânsito não anda
Como assim vou trabalhar?
Não vai dar
Gostaria de explicar
De te falar do meu dia
Mas na cidade não se pode parar
Nem para fazer poesia

Tem tanto lixo no chão
Só mais esse saco não faz diferença
São só os 500 anos
Daquele tempo que não tenho

O ar me sufoca
Desisti de respirar
Meus pulmões tem problemas
Meu estômago tem problemas
Meu corpo todo tem problemas

Será esse o fim?
Não, é apenas o começo
Tem mais gente vindo pelas estradas de barro
Tem mais coisas sendo fabricadas
Celulares, carros, televisões

Queria avisa-los que essa rua esburacada não é o caminho.
Mais não tenho tempo, eles também não o tem
Queria ter tido uma horta
Disse isso a minha mãe um dia
Mas nessa varanda 3x4, meu filho, nunca caberia

Sou mais uma voz na multidão
Queria não ter sido o único a dizer não
Queria não ter sido o único a estender a mão 
Pois ninguém me estendeu
Não se tem tempo, disse meu pai, tenho trabalho
Vá estudar, disse minha mãe

Fiquei sem ter a quem recorrer
Passei a falar com as paredes
Olhe só que bizarro
Elas eram a fonte do problema
Bloqueando a luz no meu quarto


                                                                                                                                            Eduarda Ferro.

Comentários

Postar um comentário